- Marcos Antunes
- 18 de jun. de 2021
- 5 min de leitura
Atualizado: 1 de jul. de 2021

No início de 2020, quando o coronavírus era apenas uma notícia a mais no jornal e parecia muito distante, os estados de Minas Gerais e Espírito Santo apareciam nas manchetes do país inteiro devido às chuvas que causaram centenas de mortes, milhares de desabrigados e muita destruição.
Essas chuvas foram resultado de um fenômeno natural já conhecido e documentado pelos pesquisadores do clima. Esse fenômeno é denominado Zona de Convergência do Atlântico Sul. Entretanto, a cada década os recordes de volume de chuva são quebrados, em uma crescente que parece apenas acelerar. O triste é que existe uma relação imediata de causa e consequência entre o aumento da temperatura do planeta e o agravamento deste fenômeno natural. Carlos Nobre é um pesquisador do instituto de estudos avançados da USP. Ele participou da criação de diversos relatórios do clima da ONU, e fala sobre esse assunto em um podcast da Folha de São Paulo, que foi ao ar no dia 06 de fevereiro de 2020.
Na ONU existe uma organização voltada exclusivamente para enfrentar os desafios causados pelas migrações. A OIM: Organização Internacional para as Migrações, existe desde 1951 e é a principal organização intergovernamental mundial líder em migrações. Para além das guerras, perseguições políticas e outros motivos, a OIM tem uma previsão assustadora para os imigrantes do clima. Até 2050, mais de 200 milhões de pessoas precisarão se deslocar de suas casas, cidades e países devido às mudanças climáticas, buscando refúgio.
O aquecimento global não é mais apenas uma preocupação futura. Ele está destruindo cidades e causando ondas de migração. Vivemos em um planeta com um crescente número de refugiados do aquecimento global.
Todo esse flashback para fevereiro de 2020 tem um objetivo: o fim da civilização humana como conhecemos já era pauta antes da pandemia agravar todos os cenários que já estavam ruins.
Você sabe do que eu estou falando. Os livros, filmes, séries, peças, músicas e telas dos nossos tempos já te contextualizaram. O cenário distópico pós apocalíptico se vê repetido na produção cultural global do novo milênio por um motivo simples, e não é coincidência. Esse motivo é a aderência.
As imagens que ilustram esse post tem como referência um álbum lançado também em um mundo pré-pandemia, em 2019, pela banda de rock nacional Fresno. Se você foi um adolescente nos anos 2000 já deve conhecer o som desses brasileiros roqueiros e emotivos. Se não conhece, recomendo os sucessos dos anos 2000 pela nostalgia e o novo álbum pelo poder da mensagem. A Fresno de 2019 é mais madura, mais abrangente e completa. Mas se você já conhece a Fresno e sempre curtiu seu som, não se preocupe. A performance dramática e potente de Lucas Oliveira continua tão característica quanto antes. O EMO da segunda década do segundo milênio ainda vive, está bem representado e agora o que não falta são motivos para sofrer. O nome do disco? Sua alegria foi cancelada. E é claro que ele versa sobre o fim do mundo.

Falar sobre esse assunto é aderente porque faz sentido. Quando a ciência, a política e a tecnologia apontam para uma catástrofe iminente, a produção artística precisa responder. Essa consonância da produção cultural e intelectual de um povo, em um determinado período da história, é algo que em 1837, no seu livro Filosofia da História, Hegel chamou de Zeitgeist. O termo, inclusive, é um coringa originado no alemão e utilizado por vários pensadores, autores e artistas. Assim como a saudade do nosso português, a palavra Zeitgeist não tem tradução. Seria algo como “o espírito da época”. Ou “o sinal dos tempos”. Gosto da tradução livre de Zeitgeist para ¨sinal dos tempos¨. Soa ainda mais profético e apocalíptico.
Como já deve ter percebido, pelo título e pelo teor do texto, sou um grande apoiador do apocalipse. Acho que a humanidade já viveu milhares de anos no planetinha azul e, aparentemente, essa aventura está chegando ao fim. Pessoalmente, acredito que vamos todos viver bastante para acompanhar o que penso ser o começo do fim. As próximas gerações ainda encontrarão um cenário pior que o nosso.
Infelizmente a previsão do tempo para o apocalipse não tem alienígenas, zumbis, cometas, explosões e finais pirotécnicos. A programação envolve longas décadas de fenômenos meteorológicos catastróficos intensificando cada vez mais; escassez de água potável e alimentos; conflitos políticos e confrontos entre nações em disputa por recursos naturais; surgimento de novas doenças a partir de novos vírus, superbactérias e condições de vida cada vez piores dentro da nova realidade climática. Não vamos falar sobre a automação e os avanços tecnológicos que tem se mostrado mais nocivos do que úteis. Um pouquinho de neura de cada vez para não surtar por completo.
Pois é. A coisa está feia e a tendência é piorar. Se você está começando a se sentir ansioso ou até mesmo um pouquinho em pânico, tudo bem: existe um momento em que o pânico é a resposta apropriada.

Essa frase não é minha. "There is a time when panic is the appropriate response" é uma citação de um cara chamado Eugene Kleiner. Não seria absurdo dizer que Eugene Kleiner foi um dos pais do Vale do Silício. O especialista em capital de risco foi um dos maiores empreendedores de todos os tempos e é, até hoje, mesmo vários anos após a sua morte, uma referência no assunto. O cara é ninguém mais ninguém menos que o pai da empresa de onde vieram Google e Amazon.
Gosto da ironia de usar um especialista em capital de risco que morreu com uma parada cardíaca para tranquilizar seu pânico bem justificado com o possível fim da humanidade. Existe alguma poesia aqui. O pânico pode ser justificado, e até mesmo assertivo, quando uma coisa preciosíssima está em jogo: o dinheiro. Ou, no caso das quantias exorbitantes de dinheiro que o autor da frase possuía na época, o capital e o lucro.
Eu tenho uma teoria mais ou menos assim: se o colapso da civilização humana e a destruição do equilíbrio do ecossistema global dessem prejuízo financeiro para todos, esse pânico generalizado, motivado e assertivo, já estaria instaurado. É uma pena que o que está em risco são nossos futuros anos de vida, a forma com a qual vamos vivê-los e a sobrevivência das futuras gerações.
Aqui em #NEURAS virei sempre falar sobre essa aflição que acompanha a produção cultural e intelectual dos nossos dias e sobre o tormento que essas inquietudes cheias de medo nos trazem.
O texto está acabando e você provavelmente está esperando um parágrafo final que ofereça um outro ponto de vista, uma perspectiva, senão otimista, pelo menos não tão fatalista assim para os argumentos e ideias que expus antes. Sinto te decepcionar, mas a sua alegria também foi cancelada. A bixa de bike não está aqui para apontar o caminho, promover comoção popular e oferecer um pouco de esperança. Há quem esteja fazendo exatamente isso. Acho nobre e louvável. Mas se te causei um pouquinho de desconforto, já cumpri meu papel.
Megafone ligado, violino em punhos e olhos atentos. Nesse rolê eu estou só fazendo a locução.
Até a próxima neura.
Nos lemos/vemos/ouvimos por aí!
Esse episódio também é um podcast. Ouça!
