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Atualizado: 1 de jul. de 2021



No início de 2020 eu estava aqui nas redes, jogando minha cara e minha vida na internet. O que eu mais tinha eram planos; e a maioria deles envolvia produzir conteúdo. Era um tal de construir um feed harmônico no Instagram, participar de grupos de debate no Facebook, publicar artigos no Linkedin, seguir listas de notícias do #twitter (hashtag twitter). Eu tinha uma noção bem clara de quem "eu" era e como esse "eu" se traduzia nas redes. E gostava desse processo, eu me envolvia. Tanto é que criava planos a partir dessas ideias.


Engraçado como criamos planos quando achamos que sabemos quem somos e para onde queremos ir. No início de 2020, inclusive, publiquei um artigo no Linkedin com o título: "Dada a largada! Se suas metas para 2020 fossem uma corrida, você apostaria em si mesmo?" Irônico, não é? No artigo eu falo sobre motivação para seguir os planos e o atrito que existe para nos impedir. Era um momento de recomeço pra mim.


Em 2019 eu encerrei muitos ciclos auto destrutivos. Foi o ano em que comecei a sair da minha primeira crise pesada de depressão. Ela aconteceu em 2016. Uma demissão foi o gatilho. De quando a depressão vinha, há quanto tempo ela me acompanhava quando eu consegui estragar mais uma oportunidade de trabalho com promessa de futuro, eu não sei. Desde a infância, provavelmente. Minha primeira demissão foi aos doze anos, inclusive. História pra outro texto.


Lá em 2016 eu comecei a fazer acompanhamento psiquiátrico, junto da terapia. Três anos depois, em 2019, eu começava o processo de retirar medicações e decidi naquela época abandonar um trabalho que não mais me realizava. Finalmente tomava medidas incisivas e conseguia de fato priorizar a mim e a minha saúde. Antes do ano acabar eu tinha um emprego novo para 2020, um novo propósito de vida e um novo destino para o dinheiro que agora eu não mais teria de gastar com tanto remédio.


O que veio em seguida é comum a todos nós. A pandemia jogou os planos de todos pro alto, sapateou e sambou no que sobrou do que caiu no chão. Minha saúde mental, pela qual eu tanto lutara, se via em risco. A minha cara, a minha vida e a pessoa que eu acreditava que era, pararam de aparecer por aqui. A internet se tornou o único meio de socialização responsável em um momento de distanciamento social e as redes sociais adquiriram um novo aspecto. A "vida real" passou a acontecer cada vez mais por aqui. A linha borrada que delimitava o mundinho online do offline virou espectro, algo inteiramente questionável.


Olhei pros meus perfis e me incomodei profundamente com o que vi ali. Aquilo não era eu. De repente o cenário mudou e o palco onde eu fazia meus ensaios tinha se tornado o palco principal. Havia alguém me interpretando e o papel não era meu. Um papel que não servia mais. Uma máscara que, junto com os planos que eu havia traçado, caía ao chão.



Abandonei as redes. Não fazia sentido estar ali. A noção clara de quem eu era e como devia me apresentar na internet virou poeira. O avatar que me representava nas telinhas de quem me via no celular não colava mais comigo. Passei os últimos meses tentando descobrir, entre tantas outras coisas, quem eu sou. Eu não tenho resposta pra essa pergunta ainda, e talvez eu não venha a ter nunca. Estamos todos nesse mesmo barco, né? A sorte é que ele ainda flutua.


O que eu percebi nesse processo foi o seguinte: enquanto eu buscava me reconhecer, minha mente invariavelmente voltava pra cá, para a internet, para a forma como eu iria mostrar aos outros quem eu sou. Para o lugar onde eu costumava me expressar, que de uma hora pra outra, não fazia mais sentido pra mim.


Perceber isso, essa urgência em não apenas me encontrar, mas principalmente me encontrar no ato de me mostrar, me fez entender que me expressar é parte indissociável de quem eu sou. E que a forma com a qual apresento essa expressão aqui na internet não é, nem jamais poderá ser "eu", uma vez que é apenas uma parte de mim.


Todo esse papo de "quem eu sou", "avatar", o todo e a parte pode parecer plot de Black Mirror ou de algum filme de ficção científica. Você pode agora inclusive estar pensando: "a bixa se perdeu na personagem". E a ideia é essa mesmo, mas o objetivo não é se perder, e sim se encontrar.



Para ilustrar esse texto assisti ao filme Perfect Blue, que fala justamente sobre essa perda de conexão com a realidade e o processo de despersonalização. É uma animação japonesa de 1997 que influenciou fortemente os filmes "Requiem Para um Sonho" e "Cisne Negro", do diretor americano Darren Aronofsky. Foi nele também onde tirei inspiração para me expressar aqui e fazer as artes gráficas que acompanham esse texto. Se você gosta de suspenses psicológicos, recomendo muito que assista.





Essa parte de mim, que por tanto tempo existiu e foi expressa por aqui, não é mais a mesma de março do ano passado. Mais de um ano se passou. O tempo costuma ser cruel e veloz mesmo quando o mundo não está acabando, quando a civilização humana não está em colapso iminente e as interações sociais não acontecem em sua maioria dentro de caixinhas conectadas ao Wi-fi. Uma vez que, além do tempo que o tempo já faz passar, estamos todos também sendo privados de um outro tipo de tempo: aquele que todos esses novos fatores vem para roubar de nossas vidas; em um ano vivemos décadas, morremos décadas, perdemos o tempo de vidas inteiras, milhares de vidas.


Mas eu não vim até aqui publicar esse texto para falar das atrocidades às quais são submetidos os brasileiros que sobrevivem ao desgoverno e à pandemia. Eu vim aqui, depois de um hiato bem longo, para retomar a posse de algo que antes era meu e, de uma forma ou de outra, perdi. A minha capacidade de me expressar, parte da minha voz.


Diferente do "eu" do ano passado, não tenho muitos planos. A verdade é que nem sei bem ao certo se quero ter planos por agora; ainda me parece imprudente e até prepotente planejar. O "produzir conteúdo", que fazia parte dos planos do passado, deu lugar para o exercício de expressão. A diferença está principalmente na intenção. O primeiro é sobre chegar em algum lugar, produzir conteúdo PARA algum objetivo. Para seguir o plano. Já o exercício de expressão não tem objetivo final. Não há uma plaquinha de chegada no fim da corrida. O exercício de expressão objetiva a si mesmo. A prática é a sua conclusão.


Mas existe algo nesse exercício de expressão que faz com que sua prática, apenas pela prática, seja concretizada. Esse algo é você.


O processo onde parte de mim se expressa aqui, entre tantos outros lugares, através da escrita, só se completa quando você, aí do outro lado, me lê. Nesse encontro eu gosto de acreditar que existe uma troca. Algo de mim passa a viver em você. E quando você devolve essa bola e fala comigo sobre o que você recebeu, parte de você também passa a viver em mim.


E agora, com as palavras de um avatar que não sou eu inteiro, mas é também parte de mim, eu quero te agradecer. Por ter me lido até aqui: muito obrigado. Significa muito mesmo pra mim. Se você gostou da troca, quero que saiba que pretendo escrever mais. Pretendo soltar o verbo e me expressar sobre coisas leves e coisas cabeludas que podem ou não ressoar em você. Se você quiser ler, para acompanhar esse avatar, é só me seguir aí no mundinho nem tão virtual mais das redes sociais.


Nos vemos/lemos/ouvimos por aí!



Esse texto é também um episódio de podcast. Ouça!



 
 
 
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