- Marcos Antunes
- 3 de abr. de 2021
- 16 min de leitura
Atualizado: 24 de jun. de 2022
Os prados que se estendem a leste das florestas da terra de Orelhasgrandes sempre foram cheios de vida e movimento. A topografia era bondosa com quase todas formas de vida naquela região, especialmente com os pequenos. De um lado, se estendem por quilômetros, as florestas úmidas que são o coração e o pulmão daquela terra, cobrindo colinas e montanhas de um verde vivo a perder de vista. Do outro, vindo do norte, corre o riacho de água-da-vida rente aos paredões de rocha escura que circundam os prados pela sua extremidade leste. O elixir que se derrama pelo seu chão e a sombra dos paredões rochosos são as razões de Ddo fervilhar dos de pequenos, que em sóis comuns pululam a vegetação baixa, numa orquestra de ruídos, cantos e estalos.
Em sóis comuns, sim. Mas aqueles sóis não eram comuns. E a vida não mais abundava por ali.
Naquela manhã, o sol, independente como só ele, não se importava com os empecilhos da vida no solo e nascia mais uma vez indiferente por detrás dos rochedos. Seus raios rubros e amarelos contra o topo das paredes de pedra faziam com que elas parecessem ainda maiores e mais imponentes. As colinas, que sobem em direção ao céu do lado oposto dos prados, já estavam cobertas de luz. Um verde folha brilhava como o próprio céu onde os raios da manhã tocavam o topo das árvores, muitos pés acima do chão da terra plana dos prados. Ali, ainda na sombra, a vegetação baixa chorava suas últimas gotas de orvalho. Uma linda manhã de sol nos prados das terras de Orelhasgrandes. Linda, mas sem ninguém para apreciá-la. Ou quase ninguém.
Na terra ainda úmida, uma comitiva caminhava ritmada sobre pés grandes e pesados, embalada pelo grunhir tosco e quase silencioso de animais que, fossem esses sóis comuns, jamais pisariam naquele chão. Os seres que grunhem se moviam num chacoalhar apressado, carregando em paus um grupo de pequenos desafortunados e perdidos. No meio desse grupo de infelizes, se encontrava uma forma de vida quase tão rara e incomum quanto os animais que a carregavam. Com pelos alvos como o brilho da lua, atada a um pedaço de pau, balançava no ritmo de passos abafados e grunhidos surdos uma média de nome Justa.
Poucos sóis antes da tenebrosa situação em que ela se encontrava, Justa cantava seu cantodeacordar do alto de uma árvore na mesma floresta em que ela, agora, via, de cabeça para baixo, com os olhos cheios de lágrimas. Faziam apenas cinco sóis e seis luas, e parecia absurdo que em tão pouco tempo tudo pudesse mudar de forma tão abrupta.

Aquele fora o primeiro sol depois das noites sem lua. Enquanto a manhã nascia, Justa se agarrava às galhas mais altas e mais finas de uma mangueiramestre que se estendia no pico de uma colina, com todas as juntas e músculos do seu corpo esticadas em direção ao céu. As mangueiramestres são sempre maiores e mais vistosas que as outras árvores ao seu redor. Nelas é onde você tem a maior chance de encontrar outros exemplares dos médios, como a Justa. São seres raros, mas muito mais parecidos com os pequenos que com os grandes, embora não pensem dessa forma.
Naquela manhã, com a ponta das garras esticadas para cima, Justa tocou o primeiro raio de sol. O calor da luz encheu seu corpo de ar, que entrava em seu peito como vida e dele saía como melodia. O cantodeacordar ecoou pela floresta, reverberou nos prados e fez eco nos paredões. Um a um, os pequenos abriram seus olhos, esticaram suas pernas e levantaram suas cabeças, orelhas, antenas e ferrões. A roda da vida voltava a girar veloz.
Embalada pelo som da vida que despertara com seu canto, Justa saia pulando pelos galhos, rastejando pelo chão, nadando pelos rios e lagos, correndo veloz pelos prados, coletando dos outros seres as suas honras à Orelhasgrandes.
_Dois ovos dessa ninhada, vou levar!
As mães nunca cedem os seus filhos de bom grado, mas os médios são aqueles que com uma mão retiram, e com a outra entregam. Não há o que contestar.
_Um broto desse ramo, faça o favor!
Sem coleta de honras as plantas cresceriam mais rápido, há de se concordar. Mas sem o cantodeacordar nenhuma árvore estenderia seus galhos em direção ao céu.
_Deixe aqui comigo um pouco dessas nozes.
Essa não foi sem argumentação:
_Mas elas são tão difíceis de achar e reunir! Tanto tempo, tanto trabalho…
Sem olhar uma vez sequer pro reclamante, Justa ensacava o que clamava e seguia sem demora:
_Melhor um punhado de nozes que noz nenhuma!
Com os médios não vale muito o esforço de barganhar. E pouco é, de fato, melhor que nada. Uma afirmação irrefutável, afinal.
Grãos e carne. Leite e mel. Suor e sangue. Justa seguia com um sorriso cheio de dentes recolhendo os seus. Não tinha muito com quem dividir, e o que recolhia era demais para si. Mas, como os pequenos, Justa tinha também a quem reportar. Em suas costas felpudas carregava o saco de honras. Quando ficava grande demais, pesado demais, fazia uma pausa para se refestelar. E é nessa hora que Justa colocava para trabalhar seus bens de maior valor.
Ao longo das eras, os médios desenvolveram dentes de pedra cristalina. Dentes mais afiados que a lâmina de qualquer espada que já tenha sido forjada e mais resistentes que o cristal mais denso que já tenha florido em qualquer rocha: dentesdesal. Com eles, quando as costas pesavam demais, os médios sentavam nas margens do riacho de água-da-vida para, com seus dentesdesal, triturar um pouco do seu fardo. Trituravam com igual esforço o duro e o macio. Bebiam do leite, comiam da carne e se lambuzavam com o mel.
Não comiam para saciar sua fome. Veja bem: os médios, assim como os grandes, são de uma natureza insaciável. Comiam pois podiam comer. Porque era bom e porque assim seu fardo pesava menos no longo caminho diário para o norte, em direção ao posto dos grandes. Com um fardo mais leve, o caminho era menos cansativo. Além disso, abria espaço para mais coleta. E os pequenos, quando somados todos, tinham muito o que pagar.
Sem limites do quanto extrair da vida e da terra, os médios comiam tanto, de fato, que toda energia de vida gerada em seu corpo se condensava em suas entranhas e, sem ter por onde sair, brotava dos seus ossos e rompia sua pele coberta de pelos áureos. Na boca, com uma dentição após a outra, o excesso de dentes que se soltavam da gengiva macia ia parar no fundo do saco de honras, com um ruído estridente de pedrinhas afiadas e cristalinas a chacoalhar. Os dentes que caíam não tinham valia para os médios, mas eram muito apreciados pelos grandes: ¨saco cheio de dentesdesal faz o médio do grande um igual¨. Além dos dentes, que nunca param de crescer e cair desde que o médio continue a comer, crescem na cabeça, nas costas das mãos e dos pés chifresdesal permanentes. Características úteis para revelar a idade de um médio pelo seu tamanho e envergadura.
No caso de Justa, seus chifres pequenos e pontiagudos eram bem diferentes dos chifres grandes e contorcidos dos médios anciãos. Ela era jovem. E por ser jovem, comia ainda mais e com mais vontade. Seus dentes trocavam mais rápido e por volta do meio-sol, quando a luz atingia de cima os prados e fazia brilhar e reluzir a face do riacho, seu saco já estava chacoalhando como um sino de muitos badalos de vidro.
Isso fora há cinco sóis e seis luas. Para Justa, no entanto, o sol que agora nascia parecia vir depois de longas eras de fogo e de gelo. Se antes sentia vergonha de seus chifres pequenos e invejava os médios anciãos que ostentavam espirais e galhas de chifresdesal, agora sentia saudades. Mesmo pequenos, foram sempre afiados. E eles viriam bem a calhar contra as cordas que atavam suas mãos e seus pés.
Um pequeno teimoso levantou seu focinho por sobre a relva molhada em direção ao grupo dos seres que grunhem. Mal deu a primeira fungada e, antes que seu olfato apurado gritasse para todos os seus outros sentidos ¨Corra! Fuja!̈”;,” a mão enorme de um dos seres que grunhem o aprisionou por entre dezenas de dedos. O pobre pequeno até lutou, mas as inúmeras garras afiadas rasgaram couro e carne, colocando a criatura em um aperto sem chances para fuga. O pequeno chiava de dor e se debatia em vão.
Justa observou com relativa indiferença o processo. O pouco que vira na lua e no sol que precederam aquela manhã foi o suficiente para anestesiá-la, e a dor alheia não lhe comovia. Tinha suas próprias dores para sentir.
Enquanto os seres que grunhem baixavam o pau para pendurar a nova presa, as dores de Justa voltaram a arder. O sangue seco no rosto, que escorreu de sua cabeça quando teve seus chifres arrancados, encontrou a umidade do solo e voltou a exalar o odor de minério que só o sangue dos médios exala. Os tendões da parte de trás dos seus joelhos pareciam se desfiar quando o peso de seu corpo foi devolvido ao chão. A pele por baixo dos pelos que já foram alvos sulcada; corroída de tanto moer-se contra o pau onde estava amarrada pelos calcanhares atados aos pulsos.
Com rápidos e precisos movimentos, dois seres que grunhem ataram o pequeno. Ainda chiando de agonia e terror, ele foi amarrado ao último espaço livre do pau em que onde Justa também seguia pendurada. Seus olhos se encontraram quando mais uma vez foram içados. Os seres voltaram a se mover e o pequeno chiou ainda mais alto.
"Esse é dos barulhentos."
_Não adianta chiar e se debater, pequeno. É preciso esperar em silêncio.
Justa falava mais para si mesma que para o desafortunado. O pequeno chiou ainda mais alto, tremendo violentamente.
_Os que grunhem não conhecem nossa terra e rumam norte, em direção aos grandes. Se mantenha vivo até lá e verá mais sóis para chiar e se debater à vontade.
Com um sacolejo particularmente violento, o pequeno soltou um último guincho de dor e fez silêncio. Justa apurou seus ouvidos de média e não conseguiu distinguir dentre os ruídos da manhã o palpitar do coração do pequeno, tão pouco o sopro de ar que deveria entrar e sair de seus pulmões. Ele não guincharia mais.
Como ele, vários outros morreram quando capturados pelos seres que grunhem. Mas não todos. A maioria, na verdade, seguia como Justa: respirando pouco, se movendo ainda menos, esperando um milagre ou uma salvação. Na esperança vã dos pequenos, a salvação viria na forma de um médio sadio, que com seus chifres-de-sal grandes e retorcidos espantaria aqueles vermes que ousaram se espalhar pela terra de Orelhasgrandes. O que nenhum deles tinha percebido é que entre eles havia uma média, também pendurada em um pau, com os pés e mãos atados. O sangue tingira sua pelugem alva de vermelho escuro e a ausência de chifres a deixou praticamente irreconhecível. A boca desdentada também não ajudava, muito embora ninguém ali estivesse mostrando os dentes em prosa animada.
"Já passamos pelas quedas-d'águadavida do campo amarelo, em breve entraremos em território dos médios anciãos e depois, o posto dos grandes. Aguente firme."
Aguente firme, siga resistente, não desista, não recue, não pare, não vacile. Justa repetia essas palavras para si mesma enquanto aguardava pacientemente a sua salvação. Eram essas também as palavras que os grandes repetiram nos sóis que precederam aquele caos. Quando os rumores de que novos seres que grunhem invadiam a terra de Orelhasgrandes começaram a se espalhar, os médios foram os primeiros a levar suas preocupações ao posto dos grandes.
_Nossas terras sempre resistiram aos ataques de seres que grunhem... A voz altiva e distante dos grandes do posto vinha de cima, pastosa e grave. Recolhiam os sacos de honras lançando os dentesdesal em uma pilha e o restante noutra.
_ ...eles vêm do sul e antes que possam chegar aos camposvioletas já se esvaíram de cansaço. Não nasceram para caminhar e mesmo assim caminham. Sua derrota está em sua persistência.
É verdade que seres que grunhem não eram novidade naquelas terras. Sempre em grupos, adentravam como lanças pelos prados onde a grande concentração de pequenos atraía seus instintos e facilitava sua reprodução. Mas os seres que grunhem são burros e cegos. Nômades, não fazem morada. Além disso, não possuem olhos e migram sempre em linha reta, na mesma direção. Os primeiros pequenos que cruzam seu caminho são vítimas fáceis dos braços longos e ágeis que manobram as mãos cheias de dedos. Além disso, os seres que grunhem não são conhecidos por sua velocidade, o que faz com que suas investidas não sejam longas. Basta que a vida saia de seu caminho e antes do esperado eles se encontram famintos, fracos e cansados. Incapazes de voltar atrás e olhar ao redor, rumando em linha reta em direção a sua própria aniquilação.
Por centenas de milhares de sóis fora assim, e os grandes falavam com sabedoria ao afirmar que assim seria por mais incontáveis sóis e luas. Suas palavras pareciam sensatas, e, para Justa, elas eram o som da razão:
_Não silenciem suas vozes, o cantodeacordar é o que mantém a terra de Orelhasgrandes viva e produtiva e seus paredões altos e fortes, nos protegendo do mal que vem do leste.
O simples mencionar do ¨mal que vem do leste¨ era o suficiente para aterrorizar e levantar a pelugem branca dos médios em um calafrio gélido. Nunca viram esse mal, sabiam que ele ficava pra lá das paredes de pedra, e que os grandes, e somente eles, podiam manter o mal contido. Mas era com seriedade que os grandes falavam sobre a ameaça e com o terror que emanava dos seus olhos pequenos inspiravam o medo.
¨Se até os grandes temem o mal que vem do leste, todos nós devemos temer.¨
Com uma ameaça muito maior que um bando de seres que grunhem burros e fracos vindo do sul, Justa seguia sua missão. Tocando o primeiro raio de sol com os dedos esticados, entoando o cantodeacordar pelas manhãs, coletando a honra dos pequenos, triturando seu trabalho e transformando-o em dentesdesal.
Mas encontrar pequenos para tributar se tornara difícil. Muitos começaram a ignorar o cantodeacordar e se esconder em suas tocas e buracos. Os rumores dos seres que grunhem começaram a ficar cada vez mais absurdos. Diziam que estes eram diferentes dos demais, que não se cansam nunca de migrar. Que seus braços são dez vezes maiores, e que ninguém, médio ou pequeno, conseguiu alguma vez contar os inúmeros dedos de suas mãos. Que se movem cada vez mais rápido, capturando e se alimentando dos que ousam ficar no seu caminho. Que não eram apenas ¨um bando¨ e agora formavam hordas de centenas, talvez milhares. E foi pensando neles que Justa acordou de um susto na noite de lua que antecedeu sua captura.

Os galhos da mangueiramestre onde repousava começaram a balançar de um jeito que o vento não consegue fazer. Era um balançar de bicho vivo. Os ouvidos apurados de Justa acordaram antes dos seus olhos. Continuou imóvel procurando a origem da perturbação que tinha lhe despertado. Seres que grunhem não sobem em árvores, e pequenos jamais ousariam tocar uma mangueiramestre. Apesar disso, seu ouvido podia perceber claramente o palpitar de três corações abaixo do seu. Abriu os olhos, girou no galho e o que viu a fez perder o equilíbrio.
Três médios anciãos a olhavam de baixo pra cima, com curiosidade e interesse. Dois machos e uma fêmea. Seus chifres eram tão grandes e contorcidos que pareciam galhas de um enorme cajuzeiro branco. O mais forte dos três esticou seu braço e, com um movimento mais ágil do que Justa poderia acompanhar com os olhos no escuro da noite, jogou seu corpo para cima e aterrissou como uma pluma ao lado da jovem média.
_Os chifres são pequenos e não valem a honra que precisamos.
Médios não andam juntos. São seres solitários e não saem por aí acordando seus iguais no meio da noite. Justa abriu a boca para expressar sua indignação e surpresa mas foi interrompida pela média anciã que também havia se lançado para o seu galho sem que ela percebesse e agora segurava seu maxilar com dedos de ferro.
_Os dentes são muitos e alvos. Aposto que trocam dezenas de arcadas por sol se ela for devidamente alimentada.
Com a boca imobilizada pela anciã, Justa só conseguiu resmungar, saliva escorrendo pelos lábios. O terceiro ancião que permanecia nos galhos mais baixos suspirou audivelmente e, com um pulo gracioso, se jogou para o solo de onde gritou:
_Pois bem, tragam-na ela pra baixo.
O que veio depois foi uma violação que traumatizaria Justa para muito além do que qualquer ser que grunhe poderia sonhar em conseguir. Noite a fora e manhã a dentro, ela foi forçada a triturar sacas e mais sacas de honras dos pequenos. Amarrada aos pés da mangueiramestre onde antes repousara, foi açoitada pelos seus iguais. Teve seus chifres arrancados com lâminas cegas e sujas e, quando não havia mais honra para triturar nem novos dentes para se soltar da sua gengiva, os que restavam foram tirados à força. Ela chorou, tentou gritar, implorou misericórdia e piedade, mas os anciãos agiam como se ela não estivesse alí. Já estavam satisfeitos, com os sacos cheios de dentes e chifresdesal prestes a partir quando Justa gritou mais uma vez por misericórdia. Pela primeira vez a anciã média fez sinal de que podia ouvi-la.
_Pelo menos, desamarrem ar a pobre? Os que grunhem vão despedaçá-la por completo se estiver amarrada quando for capturada.
O ancião que dava as ordens olhou para a média com ligeira surpresa e ela prosseguiu:
_São bons em dar nós, mas não sabem desfazer nenhum.
Como nenhuma resposta veio do médio mais velho, a média anciã se aproximou e desatou as amarras que prendiam Justa ao pé da árvore. Quando Justa pensou que esse era enfim um sinal de compaixão, agradeceu com os olhos cheios de lágrimas.
_Calada!
Com um golpe forte na cabeça sem chifres, Justa apagou em um sono sem sonhos somente para acordar, não muito depois, atada a um pau carregado nas costas pelos seres que grunhem, sacudindo e pingando sangue quente enquanto avançavam cada vez mais rápido para o norte.
Agora a manhã era madura, já haviam passado pelas quedas-d'águadavida do campo amarelo e em breve topariam de frente com os portões de sal do posto dos grandes. Ali os seres que grunhem iriam conhecer a força e o poder dos grandes da terra de Orelhasgrandes. Não importava se os pés da horda batendo o solo incansavelmente fizessem um estrondo ensurdecedor. Nem que as pedras rolassem para fora do seu caminho como ratos fogem para os cantos. Justa só conseguia ver os pés gordos, os braços descomunalmente longos e as mãos repletas de dedos dos seres que grunhem, mas duvidava muito que seu número massivo e qualquer que fosse a sua aparência monstruosa iria intimidar os grandes.
Os grandes estão em outro patamar. Suas cabeças quadradas repousam sobre ombros retos e largos, dezenas de pés acima do chão. Os braços esguios empunham chicotes de couro com as pontas incrustadas de dentesdesal afiados. Suas pernas e pés são de mármore maciço e sua voz sozinha é capaz de fazer tombar o tronco do mais grosso pinheiro. Apenas uma dezena de dos grandes seria suficiente para dizimar qualquer que fosse o tamanho daquela horda selvagem de seres que grunhem. Justa esperava uma batalha, obviamente. Os seres que grunhem não desviam seu caminho e, por isso mesmo, devem ser assustadores em combate. A vitória era certa, mas os grandes não sairiam incólumes daquele embate.
Os grandes deveriam pensar a mesma coisa. E, aparentemente, não estavam dispostos a sofrer baixas, pois para a surpresa de Justa, ao alcançar o fim dos paredões de pedra à direita da horda, os seres que grunhem encontraram algo que ela jamais havia presenciado em toda sua vida. Os portões de sal estavam escancarados. Parte da floresta que se encontrava com eles na porção noroeste do posto dos grandes havia sido derrubada, abrindo caminho para facilitar a passagem das criaturas. Um perímetro de segurança fora traçado e, além do terreno íngreme que subia em direção àsa montanhas rochosas tão altas quanto os paredões de pedra que se estendiam pela sua direita, não havia obstáculo para as criaturas.
Justa ficou congelada de perplexidade por um bom tempo, observando terras antes nunca vistas por médio algum em um longo tempo. Quanto mais a horda subia, maior se tornava seu campo de visão. Quando alcançou determinada altitude no vale para além dos portões de sal, acima dos paredões de rocha que limitam os prados a leste da floresta de Orelhasgrandes, Justa viu coisas. Coisas que, fossem esses sóis comuns, Justa jamais tomaria conhecimento.
Montanhas e montanhas de dentes e chifresdesal empilhavam-se em meio às rochas acima dos portões. Ao lado delas, uma outra pilha de coisas brancas: corpos de médios anciãos empilhados na entrada de luxuosas cavernas esculpidas em pedra, com centenas de sacadas tão grandes quanto uma mangueiramestre, todas elas com vista para além dos paredões de rocha. Na pilha de corpos pensou reconhecer a anciã que lhe assaltara naquela noite. O pensamento chegou em sua mente e logo fugiu quando percebeu para qual vista as sacadas das mansões se virava. O que Justa julgava ser uma barreira construída pelos grandes para proteger suas terras do mal que vem do leste era na verdade uma grande represa. O fino fio de água-da-vida que formava o riacho banhando os prados da terra de Orelhasgrandes era apenas uma porção ínfima de um infinito de água que escorria por uma fenda cavada na rocha.
Nessa represa se banhava, em uma festa sem fim, uma quantidade pequena de grandes. Grandes maiores que os maiores grandes que Justa já tinha visto. Suas vestes de banho com ornamentos complexos formados de chifresdesal e outros materiais que Justa não reconhecia. Suas orelhas enormes girando em braçadas, lançando para o alto e para os lados o líquido que para os pequenos abaixo do rochedo era condição básica para vida e corria em um fino e tímido curso de água. Para todos os lados, por onde justa colocava os olhos, ela via ostentação, riqueza e o brilho reluzente de coisasdesal.
Tudo ali, acumulado sem razão, sem destino e sem porquê. O ódio tomou conta do seu coração e a esperança que tinha de ser salva pelos grandes se tornou combustível para sua luta. Por um momento, quis agradecer aos seres que grunhem por fazê-la ver a verdade oculta escondida por detrás das mentiras e promessas dos grandes. ¨Saco cheio de dentesdesal faz o médio do grande um igual.¨ Não era verdade. Nunca seria verdade.

Em seu último esforço, levantou a cabeça e começou a morder com todas as suas forças a corda que prendia seus pulsos e pés. A gengiva já rasgada e violada começou a sangrar incontrolavelmente. O gosto de sangue encheu sua boca. O pouco que não engolia escorria pelo seu rosto, cegando seus olhos. Pensou em todo o sangue derramado, todos os pequenos pendurados em pedaços de pau, que morreriam e seriam esquecidos. Pensou na pilha de riquezas e na falta de motivo para tanta morte, dor e sofrimento. Tudo que poderia ser facilmente evitado. Pensou também em sua própria dor e em seu sofrimento. Na traição dos seus iguais. Canalizou todo o ódio que sentia em sua luta até que a carne não existisse mais em sua boca. Com a língua sentia os ossos arranhando a corda e nos ossos o início precoce de uma dentição que nunca veio. Em um frenesi louco de desespero rompeu o fio da corda e caiu no chão rochoso.
Seus pés continuavam, porém, atados. E toda tentativa de se levantar era frustrada por enormes corpos com pés gordos, braços gigantes e mãos cheias de dedos. Caiu, rolou no chão, quebrou-se nas pedras, nas pilhas de dentes de sal e nas pernas dos seres que grunhem, várias vezes e em vários lugares. Quando a horda terminou de passar, seguindo seu caminho sempre em frente, o que sobrou no chão rochoso, do alto das montanhas ,pra lá dos portões de sal era um saco de ossos quebrados, tendões rompidos e carne rasgada. O que mantinha Justa viva era sua indignação com a indiferença dos grandes pelo sofrimento dos médios e pequenos. A cabeça virada para cima, o corpo incapaz de se mover e os olhos empapados de sangue miravam um céu vermelho, sem promessa de salvação ou fio de esperança. Os estilhaços cristalinos das coisas de sal que se partiram junto com seu corpo grudados por toda parte. O reflexo da luz dos cristais em seus olhos sujos de sangue desenhava estrelas brilhantes no céu do meio dia. Era quase bonito.
O líquido quente que ainda corria de onde outrora ficavam suas gengivas começou a encher sua boca e obstruir sua garganta. Com o surto de adrenalina no fim, Justa não sentia mais ódio, começou a sentir a dor mais uma vez. A dor, a tristeza, a perplexidade e… por fim, remorso? Foi na sua própria indiferença com os pequenos que pensou antes de morrer, enquanto tossia e se engasgava, se afogando no seu próprio sangue.
