- Marcos Antunes
- 18 de jun. de 2021
- 5 min de leitura
Atualizado: 13 de jul. de 2021

Tá todo mundo doente. Tem muita gente morrendo. O ano é 2021 e estamos todos lidando com as consequências de séculos de negligência a um aspecto muito importante da saúde da espécie humana: o aspecto mental e emocional. Falar de saúde mental e emocional é importante e finalmente parece que se tornou aceitável. Por muitos anos guardei somente para mim muitas coisas relacionadas a minha saúde mental e emocional. Com o propósito de quebrar um pouco dessa barreira, hoje vim vomitar em vocês um pouco dessa indigesta jornada de busca por cura.
É, a ideia é falar de coisa cabeluda. Antes do novo coronavírus ser descoberto na China, outra doença já vinha matando em todos os cantos do mundo, com números assustadores que crescem cada vez mais desde o início dos anos dois mil: a depressão. E ela costuma vir com sua irmã: a ansiedade. Assim como normalizamos os números de óbitos diários causados pela COVID 19 e ficamos anestesiados com a realidade chocante que eles representam, sinto que já há alguns anos tornou-se corriqueiro falar do número alto de vítimas desses males, e assim ficou natural falar sobre seus próprios distúrbios, surtos e transtornos mentais.
"Qual ansiolítico você está tomando? Ah! Com esse eu não me adaptei..."
Para fazer as artes gráficas que ilustram esse texto me inspirei no álbum "Letrux em Noite de Climão". Principalmente na faixa "Puro Disfarce", uma joia da música brasileira contemporânea performada pelas vozes surreais de Marina Lima e da própria Letrux. Eu espero, profundamente, que você conheça a referência. Se você nunca havia sido apresentado a esse álbum, só tenho uma coisa a dizer: de nada.
Trocamos experiências sobre as medicações que tomamos diariamente para adequar nossos corpos, mentes e corações ao ritmo acelerado da vida contemporânea no novo milênio. Como quem compra autocolantes do álbum da COPA, não nos assustamos nem um pouco quando as outras pessoas perto de nós também carregam o mesmo álbum debaixo do braço, em busca de preencher as mesmas páginas, colando as mesmas figurinhas. Na verdade, até gostamos de descobrir isso. Sentimos identificação e despertamos nessa troca um sentimento poderoso expresso por um termo que já apareceu aqui e ali nas minhas sessões de terapia, a tal da ressonância.
Quando decidi voltar a me expressar na internet decidi também que dessa vez iria colocar aqui uma parte de mim que nem sempre vem à tona. A parte frágil, insegura e adoecida. Não, minha saúde mental não está nada bem. E, por achar que a saúde mental de muita gente pode estar passando por dificuldades e dores semelhantes, eu venho abrir os flancos e fazer um pouquinho de oversharing. Abrir o meu álbum de figurinhas, mostrar o que eu tenho colado.
Há alguns anos fui em busca de terapia. Em busca de ajuda, em busca de alívio, em busca de tratamento. Sem saber muito bem qual tratamento, ou para o que. Nessa busca passei por vários profissionais diferentes, psicólogos com diferentes abordagens, mais de um psicanalista, alguns psiquiatras e neurologistas. Há alguns anos sigo com o mesmo psicólogo e, depois de vários psiquiatras, hoje tenho um diagnóstico que foi construído com muita dificuldade, investimento pessoal, emocional e financeiro. Principalmente por estar em constante aperfeiçoamento e por vezes passar por mudanças e correções, compartilhar meu diagnóstico e falar da minha cabecinha aqui não é só oversharing, é um ato de coragem e demonstração de vulnerabilidade. Espero que receba com carinho.
Tenho TDAH, um transtorno que me acompanha desde a infância e só foi receber tratamento na vida adulta, há pouco tempo. O TDAH não tratado ocasionou em mim, como em tantos outros que também nunca receberam tratamento, um transtorno de ansiedade generalizada, que por sua vez desencadeou um quadro de depressão crônica. Essa casadinha de figurinhas é conhecida como comorbidade. A Associação Brasileira de Déficit de Atenção aponta estudos onde 75% dos adultos com TDAH apresentam mais de uma comorbidade. As mais comuns? Depressão e ansiedade.

Para acelerar a troca de figurinhas: TDAH, depressão, ansiedade, síndrome do pânico, transtorno bipolar, TOC, distúrbio do sono, distúrbio alimentar. Todas essas já passaram pelo meu álbum. Algumas não colaram, o transtorno bipolar foi descartado como diagnóstico no fim de 2020, por exemplo. Outras foram pontuais e passageiras, os ataques de pânico vieram e foram embora. As medicações contribuem com um número bem maior de figurinhas, o que torna a troca sempre um processo animado: "Ah! Esse aí eu nunca tomei! O que você achou?"
Tendo trocado as figurinhas principais, acho que posso dizer que se você também tem o seu álbum da saúde mental aí, provavelmente vai se identificar com alguns dos meus relatos, das minhas dores e dos meus sintomas. A parte positiva é que você pode se identificar também com as estratégias que adotei e adoto, as descobertas que fiz e faço, e a evolução que tive ao longo dos anos. Evolução que continua e não para nunca. É pra vida toda.
Se você não tem figurinhas pra trocar nessa rodinha, fico feliz em saber! Pode ter certeza que você também irá absorver muita coisa boa ao me ver falar sobre questões que não precisam de um diagnóstico para causar ressonância em você: desatenção, hiperatividade, impulsividade, angústia, medo, culpa, procrastinação, auto-sabotagem, frustração e desespero. Se você vive no mesmo mundo que eu, conectado de maneira quase que umbilical às telinhas pretas do seu dia a dia, alguns desses tópicos poderão parecer muito próximos da sua realidade. Acredito que, nos dias de hoje, quem olha ao redor e não se sente nem um pouquinho desesperado só pode estar pouco ou muito mal informado.
Essa ressonância que pode surgir em você me traz de volta ao início desse texto. Estamos todos doentes. A saúde mental e emocional da população global já estava dando sinais de alerta e demonstrando ser o grande desafio do século. A pandemia e suas complicações chegaram e aumentaram a dificuldade desse desafio em níveis que talvez só sejamos capazes de compreender com o passar dos anos. Ao olhar para toda essa loucura em um futuro que, esperamos todos, não esteja muito distante.

Enquanto esse futuro não chega, acho que é uma boa ideia trabalharmos juntos para passar pelos tempos sombrios e incertos que se descortinam. Trocar figurinhas pode ser um passatempo muito produtivo nessa missão de nos unirmos, quando todo o resto parece querer nos distanciar uns dos outros.
Esse é o segundo texto que venho trazer depois de um longo hiato na internet. No primeiro eu falei sobre o ato de me expressar e como ele me ajuda a me conectar com a realidade e formar uma melhor imagem de quem eu sou, mais generosa e menos julgadora. Se você não leu e se interessou, o link está aqui. Se você já leu e voltou aqui para ler mais esse, muito obrigado! Significa demais pra mim.
Saúde mental e emocional, TDAH, terapia e tratamento serão assuntos muito recorrentes por aqui. Assim como algumas neuroses sobre o destino aparentemente catastrófico da humanidade e até mesmo alguns textos narrativos que gosto de criar para versar de maneira menos objetiva e mais livre sobre minhas ânsias mais íntimas. Eu espero que você possa tirar algo de positivo dessa parte de mim que decidi expor e colocar no mundo. Não deixe a ressonância passar em branco, se ela acontecer, me chame. Me conte. Fale comigo. Eu quero ouvir, eu quero saber. Os canais estão aí e são abertos.
Você sabe onde me achar. Nos lemos/vemos/ouvimos por aí!
Esse texto é também um episódio de podcast!
